Fato em Foco

By RFI

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Category: News & Politics

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Description

Um tema do noticiário francês ou internacional analisado por especialistas europeus e brasileiros. Em formato de entrevista de 5 minutos, é transmitido à noite, logo após o jornal, de terça a quinta-feira.

Episode Date
Fato em Foco - Entenda a Conferência do Clima de Paris (COP 21) em 10 pontos
00:05:23
Chegou a hora da COP 21: a grande conferência internacional sobre o clima começa nesta segunda-feira (30), com os pronunciamentos de 147 chefes de Estado e de Governo em Le Bourget, na periferia de Paris. Em seguida, os negociadores dos 195 países da ONU ficarão reunidos por duas semanas para tentar chegar a um novo acordo mundial para limitar as mudanças climáticas e o aquecimento global. Entenda por que o evento é tão importante. O que é a COP 21?A sigla COP21 nada mais é do que um resumo para o complicado nome oficial do encontro: 21ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas. Esse texto (a convenção) surgiu quando os cientistas perceberam que a intensa poluição gerada depois da Revolução Industrial, no século 19, tem consequências devastadoras para a natureza e até para a sobrevivência humana. “A Convenção do Clima foi assinada em 1992 e, desde então, temos COPs anuais. A primeira foi em 1994 e, agora, estamos na 21ª. Em alguns momentos, essas reuniões tomam proporções mais importantes. Foi o caso em 1997, quando se assinou um novo protocolo, o Protocolo de Quioto, para limitar as emissões de gases poluentes, principalmente pelos países desenvolvidos”, explica Tasso Azevedo, consultor ambiental e coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG). A COP 21 é, antes de mais nada, uma ampla negociação diplomática internacional, com vistas a um entendimento entre os países sobre o futuro do clima. Quais os principais objetivos do acordo para o clima?O principal é renovar e gerar um novo acordo em substituição ao Protocolo de Quioto, cuja validade se encerra em 2020. O texto deve incluir compromissos e metas de todos os países do mundo, no esforço coletivo para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Desta maneira, espera-se evitar que o aumento da temperatura média do planeta ultrapasse os 2°C, considerado o “limite de segurança” além do qual os efeitos das mudanças climáticas seriam irreversíveis. Essa temperatura foi estabelecida pelo painel de cientistas da ONU que analisam esse tema, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre mudanças Climáticas). Segundo os climatologistas, gases como o CO2 geram o aquecimento global. Para se ter uma ideia, se nada fosse feito para limitar as emissões de gases, a Terra poderia sofrer um aumento de até 4°C até 2100, o que tornaria diversas regiões do mundo inabitáveis. A poluição que já foi gerada ao longo da história provocou um aumento de 0,85°C da temperatura global, o que resultou no derretimento de quase metade das calotas polares do Ártico e a desintegração dos glaciares do oeste da Antártida. Por que é tão difícil de os países chegarem a um acordo?Até hoje, desenvolvimento ainda é sinônimo de poluição para muitos governos. Para se desenvolver, os países precisam de intensa de atividade industrial e consumir grandes volumes de energia, que são as maiores fontes de emissões de gases de efeito estufa. Neste ano, pela primeira vez, os maiores poluidores do planeta, a China e os Estados Unidos, indicam estar dispostos a fazer mais para limitar a quantidade de poluentes jogados na atmosfera. Pequim indica que o seu pico de poluição será em 2030 e depois garante que vai começar a reduzir as emissões. Já Washington se compromete a diminuir de 26 a 28% até 2025, em relação ao que poluía em 2005. Pode parecer pouco, mas é uma mudança considerável em relação à postura desses países nos anos anteriores. É por isso que há esperança de que a Conferência de Paris termine com um bom acordo. “O fracasso sempre é possível, mas hoje estou confiante porque um grande país, a China, nos apoia, e os Estados Unidos estão comprometidos com um acordo. Países tão diversos quanto os do sul, como os africanos e os latino-americanos, estão participando do acordo”, declarou o presidente francês, François Hollande.  Você vai ouvir falar bastante sobre INDCs nos próximos dias. O que é isso? É mais uma abreviação do extenso vocabulário climático: é a sigla em inglês para Contribuições Internacionais Nacionalmente Determinadas. São os planos de ação apresentados por cada país em preparação para a COP21, com as suas propostas para reduzir as emissões de gases em nível nacional e lutar contra as mudanças climáticas. Isso pode ocorrer de diversas maneiras: substituindo as energias fósseis (como o carvão e o petróleo) por energias renováveis (como eólica ou hidráulica) ou promovendo o transporte público em vez do transporte particular (mais poluidor). O Brasil, por exemplo, foca a sua redução de emissões no combate ao desmatamento. Até o final de outubro, 155 países já tinham apresentado as suas INDCs, o que representa 90% das emissões globais de CO2. Qual é a proposta do Brasil?O Brasil colocou a sua proposta na mesa durante a última cúpula da ONU, em setembro. A presidente Dilma Rousseff anunciou que o país se compromete a reduzir 37% das emissões de gases de efeito estufa até 2025 e 43% até 2030, tendo como base as emissões que ocorriam 2005. O país promete acabar com o desmatamento ilegal em 2030 - a devastação das florestas é a maior fonte de emissões pelo Brasil. Brasília também quer garantir 45% de fontes renováveis no total da matriz energética
. Por que há tanta divergência entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento e emergentes em relação a este tema? O principal entrave é financeiro. Os países desenvolvidos até agora não disponibilizaram todo o financiamento prometido para os mais pobres se recuperarem dos estragos causados pelas mudanças climáticas – danos gerados justamente pela poluição dos ricos, no passado. Os países em desenvolvimento também precisam de dinheiro para adaptar as suas economias de maneira a poluir menos, por exemplo: trocando as usinas a carvão por outras de fontes renováveis, como hidráulica ou eólica. Essa é a chamada economia de baixo carbono. A promessa era oferecer US$ 100 bilhões por ano até 2020, mas até agora apenas US$ 65 bilhões foram garantidos – sem falar dos recursos necessários para depois de 2020. Além disso, os países em desenvolvimento e emergentes querem o direito de continuar poluindo para, um dia, poderem chegar no mesmo nível de desenvolvimento que os ricos já atingiram. O problema é que o planeta já não aguenta mais tanta poluição. O que poderá ser considerado um bom acordo na COP21?Tasso Azevedo analisa: “A gente precisa ter um objetivo claro, de médio-longo prazo, como sabermos o que teremos que fazer até 2050. A segunda característica é ter um mecanismo para a gente poder revisar os compromissos dos países periodicamente, provavelmente a cada cinco anos. Desta forma, vamos avaliar se os compromissos e as ações implementadas estão sendo cumpridas e se elas estão realmente nos levando a limitar o aumento da temperatura do planeta em 2°C”, afirma o especialista. “Por fim, precisamos ter garantias de que os recursos, o financiamento e a capacitação se concretizarão, para que os avanços necessários realmente aconteçam.” O dia mais esperado da Conferência do Clima de Paris é o do encerramento, 11 de dezembro. É quando vai ser divulgado o novo acordo, que será assinado em 2016. Quem vai participar da conferência?Barack Obama, Vladimir Putin, Narendra Modi, Xi Jinping e Dilma Rousseff são alguns dos nomes confirmados. Apesar da ameaça terrorista estar no nível máximo depois dos atentados em Paris, todos os principais líderes internacionais confirmaram presença do evento. Desta vez, ao contrário dos anos anteriores, os presidentes vão participar logo no início da COP. Foi um pedido pessoal do presidente Hollande, para reforçar já no primeiro momento a importância do evento. Mas a conferência é muito mais do que discursos de políticos: no total, 40 mil participantes são esperados para o evento, incluindo integrantes da sociedade civil e empresarial, organizações, personalidades e até celebridades engajadas na proteção do planeta. Para entrar no centro de conferências de Bourget, é preciso estar credenciado. A tradicional Marcha pelo Clima, que acontece sempre na véspera das COPs, foi cancelada. Não haverá manifestações?As limitações por causa da ameaça de terrorismo vão impedir a realização da marcha. Mas, mesmo assim, dezenas de eventos paralelos vão acentuar a pressão para que o acordo de Paris seja o mais influente possível. Protestos alternativos vão acontecer na capital francesa, como um percurso sonoro pelas ruas pelas quais a marcha deveria passar. Além disso, os manifestantes vão colocar pares de calçados na praça da República, para simbolizar a presença deles na marcha, que foi proibida por questões de segurança. Os protestos também prometem agitar as redes sociais. Para quem quiser participar de conferências paralelas, haverá uma intensa programação sobre o meio ambiente, na capital e em outras cidades francesas. A lista completa de atividades pode ser consultada aqui. A COP 21 não se restringe a Paris. Em todo o mundo, estão previstas 2.176 manifestações para chamar a atenção para a importância da proteção do planeta. Os países que não cumprirem o acordo podem ser punidos?A Convenção do Clima não prevê nenhum tipo de punição. Entretanto, todos os países signatários são obrigados a fornecer um relatório sobre o que está sendo feito para diminuir as emissões. Esse relatório é analisado por uma comissão independente e internacional e, se não estiver conforme com as promessas, o país recebe uma advertência. “Cria-se um constrangimento. Como participante da comunidade internacional, você não está entregando aquilo com o que se comprometeu”, observa Azevedo. “Isso não é pouca coisa. O constrangimento tem muito valor nesse tipo de processo internacional, porque se você não cumpre o que promete, você tem menos chances de ter as suas proposições aceitas em outras negociações internacionais.”
Nov 27, 2015
Fato em Foco - Para brasileiros em Paris, violência urbana no Brasil ainda é pior que terrorismo
00:05:12
A série de atentados em Paris e as ameaças de novos ataques na Europa confrontam os brasileiros que vivem na França com uma nova sensação de insegurança, a do terrorismo. A RFI Brasil conversou com alguns desses expatriados para saber como eles se sentem diante dos riscos. A maioria reconhece ter mudado os hábitos, na tentativa de diminuir a exposição a novos atentados. Mas, apesar dos perigos, eles afirmam ter a impressão de ainda estarem mais seguros em Paris do que nas capitais brasileiras. A editora de imagens Juliana Guanais Aguiar vive há 15 anos na capital francesa, onde sempre se sentiu em segurança. Desde os ataques de 13 novembro, o que ela mais estranha é a sensação de que uma nova tragédia pode se repetir em qualquer lugar. “Não diria que eu sinto medo, mas tomo certas precauções. Evito ir a alguns lugares, pegar o transporte público na hora de pico. O que eu acho diferente é que, no Brasil, a gente tem umas regras para seguir, e assim a gente se sente um pouco mais ativo na própria segurança. Aqui, pode-se até evitar o metrô, mas não é isso que vai nos proteger de um atentado. Ficamos completamente passivos”, diz Juliana, acrescentando que, em poucos meses, acredita que a vida parisiense vai voltar a ser o que era. Já no Brasil, a insegurança só piora. “A questão é que, no Brasil, somos ativos, mas as probabilidades de acontecer alguma coisa são muito maiores.” A professora de música Fernanda Primo também se incomoda com o fato de que, apesar das precauções, o terrorismo é mais imprevisível do que a violência urbana a que ela era confrontada no Brasil. "Não existe lugar a evitar, qualquer lugar é alvo. Por isso, o estresse é diferente, afinal não temos controle nenhum da situação", constata. "Além disso, o número de vítimas é bem maior de uma só vez." Segurança dentro de casa A gerente de marketing Carolina Mires, 30 anos, mora em uma cidade vizinha da capital francesa e tem evitado frequentar lugares cheios, como shoppings e metrôs. “Eu acho que a diferença entre a violência lá e o terrorismo aqui é que, lá, nem dentro de casa você se sente realmente seguro. Você não sabe se um louco vai querer entrar na sua casa para roubar. Aqui, apesar dos atentados, em casa eu me sinto segura”, afirma. “Você tenta voltar à vida normal, mas, por enquanto, é verdade que se chamarem para ir em um bar em Paris, eu ficarei com um pé atrás.”   O risco crescente de terrorismo na França já levava alguns brasileiros a tomar mais cuidado nas ruas. Para o agente de turismo Mario Cesar Pimentel, obrigado pela profissão a frequentar os pontos turísticos de Paris, essa tarefa tem sido mais difícil. No entanto, apesar das ameaças do grupo Estado Islâmico, ele sentia muito mais medo no Brasil do que na França. “Eu acho que a violência urbana que a gente tem no dia a dia no Brasil é muito mais grave. Ela me dava muito mais medo, e foi o principal motivo que me fez sair do Brasil”, frisa. “A violência dos atentados talvez seja mais pesada, mas ela é muito esporádica. A gente sabe que jamais vai acontecer todos os dias. No Brasil, é todo o dia, toda a hora.” Lembrança dos atentados no dia-a-dia Desde os atentados, a gerente de comunicação Jennifer Smith, 38 anos, não consegue mais desligar do assunto. Filha de pais britânicos, ela morou até os 15 anos no Rio de Janeiro, onde foi assaltada e teve um tio assassinado. A inglesa adoraria voltar a morar no Brasil - mas não cogita essa alternativa apenas por questões de segurança. Em Paris, ela vive a duas quadras de um dos locais atacados pelos terroristas, na rue de Charonne. A especialista em comunicação diz que, agora, não se sente mais segura em lugar nenhum. A cada vez que houve uma sirene na capital francesa, Jennifer fica em alerta. “Eu não queria ter medo, estou fazendo de tudo para não ter, porque não quero dar satisfação às pessoas que fizeram todo esse mal, mas a verdade é que estou com muito medo. Acho que é pelo fato de que 19 dos assassinatos foram na minha rua. É algo que eu não posso evitar: vejo o nome da minha rua nos jornais, vejo as pessoas passando para levar velas e flores até o local dos assassinatos”, relata. “Para mim, continua tudo muito vivo e muito presente. Eu fiquei extremamente chocada com esses eventos, que aconteceram em bairros que eu frequento bastante.” Acostumado com São Paulo, chef não tem medo O chef Maurício Zillo também foi surpreendido pelos atentados. O restaurante dele, A Mere, fica próximo dos lugares atacados pelos terroristas. Mas ele está decidido a não se deixar abater. “Eu cresci em São Paulo e agora não tenho medo nenhum. Eu vivo normalmente desde o dia do atentado”, garante. “No próprio dia, a gente fechou o restaurante e desceu com todos os 28 clientes até o subsolo, e ficamos até às 3h bebendo. Nos dias seguintes, obviamente a gente vê as pessoas com medo, mas ainda continua sendo muito mais seguro do que São Paulo. Paris continua sendo Paris.” Guerra ao terror é sensação nova na França A socióloga Angelina Peralva, especialista em violência da Universidade de Toulouse, avalia que os últimos atentados colocaram a França em um novo patamar de ameaça – uma situação com a qual os franceses ainda estão se acostumando a lidar. “Existe uma guerra no território sírio, controlado pelo Estado Islâmico, que responde com uma guerra no território europeu. Eu acho que isso muda o cenário. Mudou a escala do ato de guerra travado no território europeu. O sentimento de insegurança está ligado ao fato de que é difícil medir a capacidade de fogo desses grupos que estão atuando na Europa”, explica a socióloga. “O que está acontecendo em Bruxelas mostra isso, e cria um sentimento de insegurança que é novo.” Peralva ressalta que, ao contrário do Brasil, onde a polícia chega a fazer parte dos crimes que deveria combater, na França as autoridades estão oferecendo uma resposta rápida aos ataques – o que ajuda a população a legitimar as operações anti-terrorismo e, pouco a pouco, a voltar à normalidade.